VOCÊ BEM-INFORMADO SEMPRE!

18.9 C
Campina Grande

VOCÊ BEM-INFORMADO SEMPRE!

Professora da UEPB analisa relação entre consumo e amor romântico no Dia dos Namorados

Em artigo publicado nesta quarta-feira (12), Dia dos Namorados, a professora e socióloga Denise Ferreira, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), propõe uma reflexão crítica sobre a data. No texto, ela questiona os vínculos entre o amor romântico e o consumo nas relações contemporâneas.

Doutora em Ciências Sociais, Denise resgata a origem da celebração e aponta como o mercado se apropria da ideia de afeto para impulsionar vendas. A professora também menciona teóricos como Zygmunt Bauman, autor da teoria do “amor líquido”, para discutir o esvaziamento dos vínculos e a efemeridade das relações.

Mais do que uma crítica à data, o artigo provoca uma pergunta central: o Dia dos Namorados é, de fato, uma celebração do amor ou uma vitrine social moldada pelo consumo?

Segue o artigo:

O Dia dos Namorados no Brasil é repleto de simbologias e significados. A data é associada a Santo Antônio, conhecido como “Santo Casamenteiro” Fernando Antônio de Bulhões que nasceu em Lisboa, no dia 15 de agosto de 1195. Trazido ao Brasil pelos colonizadores portugueses, o culto a Santo Antônio se fortaleceu, especialmente, através das festas juninas, sobretudo, no Nordeste, onde seus “milagres” e devoção popular foram amplamente acolhidos.

A comemoração do Dia dos Namorados foi idealizada estrategicamente em 1949 pelo publicitário João Doria (pai do ex-governador de São Paulo, João Doria Júnior), contratado pela loja de departamentos Clipper (hoje extinta), com o objetivo de impulsionar as vendas em junho — um mês historicamente fraco para o comércio. Como fevereiro já é marcado pelo Carnaval e, em outros países, o dia dos namorados conhecido como Valentine’s Day é celebrado em 14 de fevereiro, Doria escolheu o dia 12 de junho como a data ideal, por anteceder o dia dedicado a Santo Antônio, também conhecido como o “santo das causas perdidas”. A escolha conferiu à data um forte apelo religioso e cultural, que, ao longo do tempo, se tornou um dos maiores impulsionadores do consumo. Atualmente, perde apenas para o Dia das Mães e o Natal em volume de vendas.

Segundo pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), a expectativa é de que, em 2025, o Dia dos Namorados movimente cerca de R$ 22 bilhões no país.

O que está por trás desse consumo crescente? Estaríamos diante de manifestações genuínas do amor romântico ou de uma “moda” socialmente induzida, na qual o gesto de dar e receber se transforma em um ato performático? Como propõe o antropólogo Marcel Mauss, o verdadeiro sentido da dádiva está no ciclo afetivo de dar, receber e retribuir e não apenas na transação comercial.

Nas semanas que antecederam a semana do dia dos namorados, presenciei uma cena que me fez refletir: ao entrar em um restaurante conhecido na cidade de Campina Grande-PB, vi um casal de meia idade trocando carinhos com ternura e naturalidade, alheios aos olhares ao seu redor.  Ao voltar do balcão, fui surpreendida com os comentários de dois garçons: “deve ser uma amante”, o outro acrescentou “quem sabe, um namoro novo”. Ambas as falas revelam algo profundo: o descrédito contemporâneo em relação ao amor. Em tempos líquidos, o romantismo parece ser algo exótico ou mesmo estranho.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman nos ajuda a entender esse fenômeno. Em sua teoria do “amor líquido”, ele explica como os laços afetivos se tornaram frágeis, descartáveis e inseguros — reflexos de uma sociedade influenciada pelo consumo e pela efemeridade. Sob essa perspectiva de Bauman, o Dia dos Namorados se transforma em um produto: consumível, exibível e passageiro. Muitos sentem a necessidade de se exibir nas redes sociais gestos românticos para demonstrar, por um breve período que fazem parte na lógica do amor, mesmo que este seja superficial e efêmero.

A socióloga hebraica Eva Illouz, em O Amor nos Tempos do Capitalismo, também analisa a fragilidade emocional contemporânea. Segundo ela, a cultura capitalista criou um ideal romântico inatingível, reforçado pela literatura, pelo cinema e pela publicidade. Isso gera profundas frustrações, pois as pessoas não atendem às expectativas midiáticas do “par perfeito”, do “amor ideal”, da “felicidade constante”. Assim, vivenciamos o medo do fracasso afetivo e a ilusão da escolha infinita.

Resta-nos a pergunta: o Dia dos Namorados é uma celebração do afeto ou uma vitrine social? Queremos realmente amar, ou apenas demonstrar que temos alguém? Ou na verdade buscamos de forma incessante um amor? Como diria o cantor e compositor Accioly Neto,  contrapondo-se a tudo que é passageiro, o amor verdadeiro deixa marcas difíceis de apagar: Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim/Um grande amor não se acaba assim/Feito espumas ao vento/Não é coisa de momento/Raiva passageira/Mania que dá e passa feito brincadeira/O amor deixa marcas que não dá pra apagar.

Por fim, o dia dos namorados, como vivenciamos hoje se encontra entre dois extremos: a experiência genuína do amor e o apelo consumista. De um lado existe toda uma construção em torno do ideal que exalta o amor; do outro ela é intensamente capturada pela lógica do mercado que acaba transformando sentimentos, emoções em produtos e relacionamentos em vitrines. Talvez um casal trocando carinhos despretensiosos nos lembre que um amor verdadeiro resiste ao tempo, às aparências e ao consumo. Desejo que o dia dos namorados seja, acima de tudo, uma oportunidade de reconexão para reafirmamos o que é essencial.

 

 

Últimas Notícias

Vitor recebe apoio dos moradores do Ronaldo Cunha Lima e Três Irmãs durante caminhada em CG

O candidato a deputado estadual Vitor Ribeiro (PL) percorreu, nesta sexta-feira (11), as ruas do bairro Três Irmãs e do Conjunto Ronaldo Cunha Lima,...

Projeto de Olimpio Oliveira propõe atendimento assistido para quem tem dificuldade com serviços digitais

Um projeto apresentado pelo vereador Olimpio Oliveira na Câmara Municipal de Campina Grande propõe garantir atendimento assistido a cidadãos que tenham dificuldades para utilizar...
Campina Grande
céu pouco nublado
18.9 ° C
18.9 °
18.9 °
94 %
2.6kmh
21 %
ter
30 °
qua
31 °
qui
31 °
sex
31 °
sáb
26 °